Em abril de 1971, foi ao ar pela primeira vez na Rádio Nacional o programa Alô Daisy, comandado por Daisy Lúcidi, atriz que já havia participado de radionovelas da emissora desde os anos 50.
A atração foi pioneira na prestação de serviços.
De doação de cadeira de rodas a oportunidade de empregos, a artista aproveitou o que aprendeu num curso de serviço social para ajudar ouvintes no programa, que ficou no ar por quase 50 anos.
Apresentado ao vivo do Edifício A Noite, no Rio de Janeiro, o Alô Daisy contava com a presença do público no auditório.
Em 2012, a rádio mudou de endereço para um estúdio sem plateia na Avenida Gomes Freire.
O programa saiu do ar no começo de 2018.
A apresentadora morreu em maio de 2020, aos 90 anos, vítima de covid-19.
Em 2016, em entrevista à TV Brasil, Daisy Lúcidi falou sobre sua paixão pelo rádio.
“Ah, o Alô Daisy é minha paixão, né? Naquele tempo estava lá um diretor, me chamou e disse: ‘Olha, eu queria que você fizesse um programa’. Eu digo: ‘Então vamos fazer um programa social. Vamos fazer um programa que mexa com o público, que dê a ele emprego, que divida com ele alguma coisa e tal. Vamos fazer já um serviço social no rádio, que não existia na época.’ E em 71 eu comecei a fazer esse programa Alô Daisy, que é um programa de prestação de serviços”, contou.
Dez anos depois da estreia de Alô Daisy, em 1981, foi ao ar pela primeira vez o programa Viva Maria, na Rádio Nacional AM de Brasília.
Idealizado e apresentado pela jornalista Mara Régia, nasceu como espaço para informar e debater sobre os direitos das mulheres.
À frente do programa até hoje, Mara comenta o cenário de abertura política vivido em 1981 com uma série de reivindicações das mulheres.
“O Viva Maria entrou nessa caminhada para poder chegar em 88 e garantir ali 80% das nossas pautas. Então: ‘Filho não é só da mãe, vamos lá para a licença-paternidade! Olha aí os 180 dias para a licença-maternidade!’ Nos momentos cruciais de votação, era o Viva Maria que conclamava, inclusive na luta das trabalhadoras domésticas. A gente teve muitos embates, muitos entraves. A gente teve muita mobilização das mulheres negras”, explica.
Das ondas do rádio para a mobilização social.
O Viva Maria reuniu as figuras femininas que criaram o Fórum de Mulheres do Distrito Federal e batalhou pela criação da primeira delegacia especializada de atendimento à mulher no DF. Ouça um trecho:
“Oi, oi, gente amiga desse nosso programa que se une às comemorações dos 20 anos da Lei Maria da Penha, inclusive para quem estiver em Brasília, na Rodoviária do Plano Piloto, que foi berço de muitas mobilizações, principalmente no período constituinte. Mas logo depois, em momentos decisivos do avanço da cidadania feminina, foi a Rodoviária do Plano Piloto, com direito a caldo de cana e pastel, que a gente tentou unir as nossas forças, de mãos dadas, peito aberto, para fazer avançar os nossos direitos”.
Mara Régia comenta que foi demitida no governo Collor por ser vista como uma liderança negativa.
Em 1993, Mara voltou aos microfones da Nacional e criou também o programa Natureza Viva, focado na preservação do meio ambiente e nas discussições com lideranças rurais da Amazônia.
Outro programa voltado às comunidades da Amazônia é o Ponto de Encontro, da Rádio Nacional da Amazônia, que surgiu como um elo de ligação entre as famílias.
– “Alô, bom dia!”
– “Bom dia, Sula!”
– “Oi, quem fala?”
– “Quem tá falando é Maria das Graças, daqui de Apuí, no Amazonas. Sula, eu quero procurar um resto de parente que eu tenho em Redenção, que há muitos anos a gente não tem contato.”
Apresentadora do programa por mais de 30 anos, Sula Sevillis conta que, nos anos 80, a emissora recebia inúmeras cartas de pessoas que estavam na região amazônica e queriam se comunicar com seus parentes.
Foi esse o gatilho para que ela criasse o Ponto de Encontro, no ar até hoje.
“Pessoas que se casaram porque se conheceram por meio do programa, famílias e mais famílias se reencontrando depois de 10, 15, 20, 30 anos. E por ano, uma média de 60 famílias se reencontravam através do programa. Várias histórias marcaram minha trajetória. Dentre as mais emocionantes, foi o reencontro de uma família que não se via há mais de 30 anos. Eu consegui conversar com eles ao vivo por telefone”, conta.
Seja na prestação de serviços de forma direta à população, seja no espaço aberto para o debate de direitos civis, seja na ponte criada para reconectar familiares, Daisy, Mara e Sula deixaram um legado de cidadania e de paixão pelo rádio na história da comunicação pública no Brasil.
*Com colaboração de Guilherme Strozi e Raquel Júnia, e sonoplastia de Jailton Sodré